terça-feira, 17 de junho de 2014

Caindo na real

Era uma vez o discípulo de um mestre que só respondia por sinais, os quais ele levava dias, meses, anos para acontecer. O questionamento do momento era que o discípulo, enquanto ia orar, passou a pensar mais perto, mais na vida real e menos nas filosofias e no conhecimento de mundo.
Estava a pedir pelas pessoas que gostava, que amava. Foi lembrando de amigos e de ex-namoradas, quando um pensamento veio à sua mente, tocou seu coração o fez cair em profundas lágrimas.
- como sou insignificante! Sou capaz de dizer "eu te amo", a uma qualquer (sem ofender às pessoas, o problema é exclusivamente meu), que conhecia há um mês e ainda não fui capaz de falar isso pra minha mãe! Não falei isso pra ela, nem para o meu pai, nem para as minhas irmãs, sequer para minha vó.
Relatou ao mestre que foi pensando na avó, que viu sua infinita insignificância, uma vez que foi orar por eles e logo começou a chorar. Todos os dias seu pai lhe falava que a avó havia rezado por ele. Seu pai e sua mãe sempre o desejavam: -Fique com Deus meu filho.
Ainda hoje, muitas vezes, chega em casa emburrado, todo errado na maneira de falar com seus pais. Confessa que gosta do abraço que dá neles, mas, também, as vezes é só por obrigação mesmo. O pior é que sente que eles estão se doando por inteiro e ele, ainda assim, refugando todo aquele amor, que ansiava por sua volta.
Entre suas dúvidas, uma dizia respeito a esse descaso com os seus. Como, em uma única oração, ele teria algum direito, como ele poderia ser alguém na fila dos pedidos? Com uma oração em décadas de vida?
Ele acreditava ter sofrido bastante com perdas de namoradas, de amigos, sofreu muito e por muito tempo, talvez tenha chegado perto da tal depressão, mas naqueles poucos instantes em que se colocou no seu lugar, sentiu a pressão, sentiu a depressão.
Se sentiu um nada, sentiu apenas que não era digno de tanto amor e, no seu senso de justiça, não merecia sequer estar vivo.
Pediu, se pelo menos ele teria como repassar essa história, para que outras pessoas pudessem não cometer o mesmo erro dele.
Enquanto ele aguarda o sinal, sua história roda.

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