Sempre encontrei desculpas por
não ter realizado algumas coisas, pior que isso, acreditei nelas. Sempre pensei
que era diferente, não pertencia a essa ou àquela turminha na escola. Não era
nem dos populares nem dos “nerds”, não era gay mas sempre estava com as
meninas, sempre fui um bom amigo e péssimo amante. Amava, mas só amava, não
fazia muita coisa pra mudar isso. Pratiquei todos os esportes a que tive
acesso, em nenhum, sucesso. Quando chegou a hora de começar a trabalhar,
qualquer coisa servia, afinal eu não estaria brincando mesmo. Com esse mesmo
pensamento segui a vida de adolescente.
Conheci a capoeira aos 16 anos,
tomei conhecimento de que existia um mundo além dos muros da minha cidade, foi
demais, tinha vigor para qualquer coisa pois sabia que no final do dia, em
qualquer lugar desse mundo, teria uma roda de capoeira pra jogar. Mas claro,
não fui um sucesso. Através dela cheguei ao mundo das artes cênicas,
trabalhando em performances muito lindas e maravilhosas. Comecei no teatro, junto
com a faculdade de direito, segui em ambos até onde deu, até o fim da
faculdade, formei e larguei.
Seguindo nas artes, conheci e
tomou conta de mim a nobre arte do Palhaço, até que enfim algo que quero ser na
vida! Assisti tudo que pude, estudei o que deu, fiz cursos... cito “só” dois: “A
Nobre Arte do Palhaço”, com Marcio Libar e “O Palhaço e o Sentido Cômico do
Corpo”, com Ricardo Pucetti. Agora sim, é isso!!! Continuei achando que era
especial, afinal trabalhava com o que amava, quem mais pode fazer isso? E nesse
tempo, a vida pessoal ia passando, aos 29 anos sofri demais por um amor, acho
que pela primeira vez sofri de verdade por amor. Pra piorar, veio uma crise de
trabalho junto. Resumo: amor perdido e desempregado. Dizem, foi a crise dos 29,
se todos tem não sei, mas eu conheci ela.
Lá do fundo do poço ressurgi,
aprendi, senti uma evolução interna incrível! De verdade, passei a ver e
entender coisas que sabia de teoria, de boca, de ouvido. O trabalho voltou e
novos amores também. – Obrigado universo, tenho uma vida de novo e tudo vai
indo bem. Comecei a me sentir especial de novo!
Bom, agora, aos 31 anos estou
desempregado novamente, fora de forma (sem treinar capoeira),
financeiramente quebrado e ainda levei um calote. Descobri que continuo me
achando especial, como foi a vida toda. Não tenho nada, não conquistei nada,
moro nos fundos da casa dos meus pais, como na casa deles, minha mãe lava
minhas roupas e agora ainda pagam minhas contas.
Mas agora percebo que não tenho
nada de especial, estou conhecendo o fracasso de vez, pois me acho um fracasso.
Não posso sequer treinar a capoeira, não sou um palhaço, não sou um advogado,
não sou um bom filho. É uma sensação terrível saber que, se morresse hoje, não
deixaria legado algum, exemplo positivo nenhum, o que sempre pensei que fosse
durante a vida. Morro de vontade de montar um espetáculo mas não tenho
capacidade de criar nada, já acho que isso é bom, porque talvez não saia nada
que preste, pois sou um ator medíocre e aspirante a palhaço. Só me resta uma
maneira de sobreviver (so-bre-vi-ver), pegar o diploma de bacharel, colocar
debaixo do braço e ir procurar emprego, trabalhar como uma pessoa normal, sem
nada de especial.
Talvez daqui a pouco, depois de
sentir na carne o que é ser um fracasso, eu esteja habilitado a começar a estagiar
na arte da Palhaçaria. Quem sabe eu comece a fazer uns cursos de palhaço como
terapia, como fuga, do lugar onde estarei para onde um dia eu já pensei estar.
Vendo o lado bom, nessas três
décadas, acho que já vivi de verdade o que muita gente não viveu a vinda
inteira, enquanto deu, fui intenso, fui o que eu era. Agora é colocar uma
máscara de outro eu e ir pra esse mundo, que não é a terra do nunca.
02/02/2015


